Minha Baixada lança nova série de reportagens: ORIGENS


Série Origens: De onde viemos, quem somos, para onde iremos. A origem das religiões de matriz africana, seus mitos e suas histórias de cura. Uma prática centenária quem vem salvando vidas no Brasil e no mundo. Vamos conhecer um pouco mais sobre estas casas de axé.

A primeira reportagem da série, Origens acompanhou a visita do babalawô Ivanir dos Santos, à casa de santo onde ele iniciou sua trajetória religiosa na Bahia há 39 anos, o Ilè Àlabásé de São miguel Arcanjo, na Bahia. Este axé é uma referência religiosa no município de Maragojipe e no Brasil, pois conta com mais de 200 filhos de santo pelo Brasil e até no exterior. Atualmente a casa é dirigida pelo babalorixá Robinho de Oxossi.

A caravana do religioso começou sua viagem na noite de terça, 18 de junho, e chegou ao seu destino somente na quarta, 19, depois de 30h de viagem para a tradicional festa de Oxóssi, patrono da casa. O fundador da casa, Pai Edinho morreu, há cerca de sete anos anos e o babalawô Ivanir dos Santos desde então não voltou mais à sua casa onde foi recebido com uma grande festa.

A festa contou com a cerimônia Ori Malu, onde a cabeça de um boi chega em procissão até o terreiro como oferenda à Oxossi, seguido de outra cerimônia chamada Padê Exu, finalizando com um xirê. O IIlè de nação Kêto, foi fundado em 1973, no município de Maragojipe, recôncavo baiano pelo falecido Edinho de Oxossi.

Um dia de muitas emoções...

A emoção tomou conta de Ivanir que acompanhou todas as etapas da tradicional festa baiana. “É inegável que voltar à Casa de Oxossi onde eu fui iniciado há quase 40 anos onde fui feito para Orixá e ver a grandiosidade em que está a casa, mesmo sentindo a falta dele, pai Edinho, é um momento de muita alegria. Esse pertencimento é muito importante. Assim como eu tenho uma família de Ifá na Nigéria, tenho outra de Orixá aqui na Bahia. Aqui está minha raiz. Aqui eu nasci para o Orixá. Estar presente na festa de Oxossi, minha navalha é um grande orgulho. Aqui dei todas as minhas obrigações, recebi o meu deká, que concede autoridade de babalorixá. Aqui também confirmei duas ekedes, um Ogã e raspei um Yaô de Oxum, depois dei minha obrigação de 21 anos. Todas nesta casa. Sempre fui tratado com muito carinho e zelo. Sinto a falta de Edinho que era além de um pai, um grande amigo. Também perdi uma irmã de barco que já faleceu, mas reencontrei muitos outros irmãos como, Odete de Obaluaê, uma das mais velhas, além da minha mãe pequena Isabela Kissasse.

Uma das mães pequena, Isabela Conceição (Dijína Kissasse), 88 anos, também recebeu a visita do Babalawô em sua passagem pela Bahia. “Fico muito emocionada em ver este filho novamente. fiz todas as obrigações dele até o Deká. Graças a Deus ele não deu trabalho para a gente não. Meu filho, peço a Zambi que lhe dê boa sorte, paz saúde e abertura nos seus caminhos”, destacou a mãe pequena de Angola. Ela é um dos esteios do terreiro Bate Folha ou Mansu Bandu Kenkê (Manso Banduquenqué), um importante centro de culto afro-brasileiro de Nação Congo-Angola (ou apenas Angola tradicional), localizado no município de Salvador, Bahia. “Ela ficou no lugar no meu pai de santo falecido, Edinho”, acrescentou Ivanir. (Kissasse ao lado esquerdo de saia branca junto com sua filha Silvia Maria, irmã de santo mais velha de Ivanir).

Ivanir lembra de suas dificuldades por conta da luta pelos direitos humanos e como seu pai de santo Edinho zelava por sua vida com orações constantes e muitas oferendas aos seus orixás. “Eu sempre lutei pelos Direitos Humanos, igualdades de direitos, etc. Isso já estava na minha trajetória de vida. Cheguei a ser ameaçado de morte por grupos de extermínio do Rio uma vez e Edinho ficava da Bahia cuidando dos meus Orixás (Alimentando Oxalá toda semana) e rezando muito por mim, junto com minha mãe pequena para que eu seguisse vivo na luta.

A irmã de santo, Silva Maria da Conceição, 76 anos, também lembra destas dificuldades do babá e conta como foi sua chegada à casa de Pai Edinho. “Ele sofreu muito até chegar nos braços do Orixá. Ele chegou por necessidade, mas foi tudo muito tranquilo e trouxe muita paz para ele”, lembrou. (ao lado direito da foto acima com saia colorida).

“Eu fui conduzido à religião, estava no meu destino”, Ivanir.

"A primeira pessoa que jogou para mim, foi mãe Dulce do Omolokô e logo em seguida eu fui iniciado no Omolokô. Ela disse para mim o seguinte: “Se não fosse um grande ancestre que você tem, você seria um grande marginal”, isso por conta da minha trajetória de vida, porque fui raptado pela polícia carioca e levado para o Serviço de Assistência a Menores (S.A.M.) e posteriormente levado a um colégio interno na cidade de Teresópolis, e mais tarde internado na Escola XV de Novembro, uma escola voltada para corrigir os meninos oriundos das classes populares. ( na foto com o atual sacerdote da casa, Pai Robinho).

Essa iniciação no Omolokô não deu muito certo para mim, quase enlouqueci, sorte que eu tive a proteção de Xangô. Depois eu fui conhecer Deuzuita de Oxalá que é do Cantuá que era minha aluna numa escola do Rio de Janeiro, ela e a filha. Eu então muito desorientado, procurei ela que fez um jogo para mim e eu lembro como se fosse hoje ela dizendo: “Eu não posso fazer nada pelo senhor, professor. Eu vejo que o senhor vai fazer santo na Bahia, na casa de uma pessoa de Oxossi com Iansã. Vou apenas por um camarão na água para o senhor se acalmar”, disse ela.

Uns dois ou três anos depois, fui dar aula na Funabem e conheci Mestre Jorge que me apresentou o seu pai de santo Edinho que estava chegando da Bahia. Nos conhecemos na casa de Odete, quando Edinho jogou para mim pela primeira vez e me disse que eu precisava cuidar melhor da minha parte religiosa. Nesta época eu estava muito bem empregado, tinha passado para a faculdade de Notre Dame", lembrou.

A Ekede Odete Santana, 84 anos, lembra como tudo começou. “Tudo começou na minha casa, em Vila da Penha, Rio de Janeiro. Eu preparei um quarto especialmente para o meu babalorixá Edinho fazer seus jogos no Rio e este espaço era na minha casa. Foi quando o Mestre Jorge o levou até minha casa para apresentá-lo ao Pai Edinho. Foi então que Edinho levou Ivanir para Bahia para fazer suas obrigações”, lembrou. (em destaque na foto).

Ivanir conta que nem sabia em qual orixá seria raspado quando viajou para a Bahia a pedido de Pai Edinho. “Quando eu vim para a Bahia eu nem sabia qual orixá eu iria raspar. Todo mundo achava que eu era de Xangô, no entanto fui feito no Oxaguiã (Oxalá novo). Eu não entendia nada desse meio, não era ligado nestas questões. Meu primeiro contato com a religião foi quando meu filho Marcelo que tinha muitas dores de cabeça foi então levado até Deuzuita de Oxalá que eu era professor do filho dela e a própria mãe de santo resolveu abrir um jogo para mim. Mas eu não tinha a menor curiosidade neste sentido.

Minha vida espiritual se deu de forma muito diferente da maioria das pessoas porque eu não fui me iniciar por poder ou porque queria ser melhor do que todo mundo ou por que iria ficar rico. Mas uma coisa é verdade. Desde que Oxaguiã entrou na minha vida; eu já passei dificuldade, mas nunca necessidades. Ele sempre me deu um caminho e Edinho é o responsável por isso.

Quando eu raspei, não sabia o que seria, ele botou todos os santos do carrego no chão e fez o jogo. Com um ano de feito ele disse para mim: “Tire isso da minha casa, leve e jogue”. Então eu sempre tive jogo, desde Yawô. Ele sabia que eu tinha um caminho de Olowô que foi confirmado depois por Yá Nitinha. Ele dizia: “Você não precisava ter raspado para Orixá. Seu pai de santo foi ousado, foi corajoso”, foram as palavras dela. Mas eu agradeço a ele porque ele não tirou meu caminho. Tempos depois, fui iniciado para Ifá. Mas tudo isso já tinha aparecido para mim quando eu estava indo para a casa de Mãe Dulce. Quando eu tive uma visão que na verdade era um destino ao qual eu fui conduzido.

Mesmo tendo autoridade espirital como zelador de Orixás (babalorixá), Ivanir segue sua trajetória espirital como pai do segredo (Babalawô)

O babalawô, por tradição, é o líder espiritual de seu povo, pelo menos na Nigéria é assim. O babalawô consulta o segredo e o babalorixá, zela pelos orixás. O trabalho do babalawô é diferente, ele não tem um candomblé, explica o babá Ivanir dos Santos. “Tenho filhos de santo, mas não tenho candomblé. Essa gira liturgia construída no Brasil. Candomblé é a roda, mas antes de chegar nessa roda, muita coisa aconteceu nos bastidores como o Orô, etc”, destacou.

No caso do babalawô, sua residência é o seu templo, explica o babá. “ Na África é assim: tudo que você faz, é no “Ibodu”, na floresta, os orôs são feitos na natureza. Assim como é importante ter o candomblé, também é importante a figura do babalawô, inclusive para as casas de candomblé, e eu fico muito orgulhoso em dizer que a casa onde fui feito, o Ilè Àlabásé de São miguel Arcanjo, na Bahia tem um olowô, feito na Nigéria que é o ápice de uma iniciação religiosa”, explica. O Babalawô não é somente o pai do oráculo, ele também é um conselheiro, acrescenta o babá Ivanir. “Se você quiser ter um conselheiro, este é o babalawô. Ele o sacerdote que dirige e também orienta tanto espiritualmente quanto politicamente o seu povo”, acrescentou.

“Todos os finais de semana, a prostituta Sônia d’Mauriti (Mauriti é o nome de uma rua onde se praticava prostituição na Praça Onze) se arruma e arrumava o seu filho para ir passear nos arredores das comunidades da Praça Onze, da década de 1950. Sempre animada, ao chegar na comunidade encontrava com sua amiga, que tem a alcunha de D'Bahia, com quem compartilhava as angústias, as tristezas e as felicidades. Uma dessas felicidades ela sempre expressou verbalmente à amiga D’Bahia, “Olha o meu bebê D’Bahia”, dizia , “ele é muito esperto. Ele vai ser doutor!”.

Mas, em um fatídico dia, o destino, o qual não nos cabe remontar aqui suas interfaces históricas, o bebê de Sônia foi-lhe retirado violentamente dos braços aos oito anos de idade. Raptado pela polícia carioca e levado para o Serviço de Assistência a Menores (S.A.M.). Depois, foi retirado do S.A.M. e levado a um colégio interno na cidade de Teresópolis, e mais tarde internado na Escola XV de Novembro, uma escola voltada para corrigir os meninos oriundos das classes populares.

Sem um referencial familiar, esse menino cresceu, se tornou adulto e foi em busca de sua mãe, e encontrou-a apenas nos registros de obituários. Após anos, já casado e com filho, é que aquele menino, que era desenhado pela mãe como futuro doutor, descobriu que ela foi assassinada pela polícia. Essa mulher, prostituta, é a minha mãe”, Dr. Ivanir dos Santos. Mestre da UFRJ nos cursos de História Comparada para alunos de graduação, pós-graduação e Doutorado.

Axé ILÊ ALABAXÉ

Pai Edinho foi iniciado pelo Babalorixá Lício de Souza Moraes em 2 de Fevereiro de 1964, aos 17 anos, sendo o dofono de um barco de três yawós - Oxossi, Nanã e Obaluaê. Cumpriu todas as obrigações de 01, 03, 07 e 14 anos com Pai Lício.

Em 2 de fevereiro de 1971, pai Edinho torna-se Babalorixá e em 1973 funda o Terreiro Ilê Alabaxé, de nação Kêto, situado no município de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. Segundo Pai Edinho, tudo aconteceu a partir de um problema de saúde, quando mandaram que ele procurasse uma casa. Lá, ele fez os trabalhos e a primeira obrigação.

Permaneceu por dois anos como abiã, estava com 14 anos, sem que melhorasse a sua saúde. Após a iniciação os problemas foram sanados, o que possibilitou Pai Edinho trabalhar, pagando as obrigações. Após os sete anos de iniciado, instalou-se onde atualmente é o Ilê Alabaxé.

“Era ainda um chalé, uma casinha humilde, eu consertei, reformei e trouxe o meu santo. Com dois anos de iniciado eu comprei, era dia 13 de junho, dia de Santo Antônio. É aqui a minha morada. Eu quis fazer para o meu Orixá".

As dificuldades apontadas por Pai Edinho não o desanimaram, pois contou com a cooperação de muitas pessoas. Segundo relata Pai Edinho, quando ele fundou o Terreiro teve que arranjar fio de telefone, para colocar luz. No barracão as pessoas comiam e dormiam, a cozinha e o banheiro eram cobertos de lona. Houve muita dificuldade, mas sempre se sentiu vencedor.

Edinho: “Caiu um paredão na Rua do Céu e me chamaram pra tirar aquele cascalho, pra me dar um dinheiro. Eu fui. Peguei o dinheiro que ganhei e comprei uma roupa preta, comprei uma calça, camisa, botei luto por minha mãe e outra pessoa me chamou para outro serviço. Quando eu fui, tomei um corte muito grande e tive início de tétano e fui esbarrar no Pronto Socorro, que era no bairro do Canela. O médico, na hora de amputar a perna, disse: "gente vocês acreditam em espiritismo? Vá numa Casa ai pra ver alguma coisa".

E passou as orientações ao povo. Foram numa Casa, me trouxeram uma coisa, passaram em mim, a febre começou a ceder e não cortaram a minha perna. Ai mandaram que eu procurasse uma Casa e eu fui na mesma Casa que eu tinha feito o serviço e ai fiz uma obrigação, que eu fiquei 2 anos como Abiã. Eu tinha 14 anos. Quando depois de 3 anos, ai o Santo queria ser feito mas ela não raspava. Ela fazia obrigação, mas raspar ela não raspava. Foi ai que depois eu vim tendo doença, tendo crise, passando momentos difíceis, dormi na rua em Maragojipe por não ter onde dormir, porque minha família não me aceitava, por causa do Candomblé. Passava fome. Mas eu na minha. Eu lavava roupa de noite pra vestir de dia. Mas eu permanecia firme, e dizia: “Eu não deixo meu Santo. Vou passar o que tiver de passar, mas não deixo meu Santo”. Mas depois que eu fiz, passei isso tudo, ai Oxóssi me levou pra essa casa, a Casa onde fiz o santo, casa de seu Lício. No dia que eu sai da casa de Santo, nunca mais passei fome, nunca mais dormi na rua, e nunca mais vim passar desespero na vida. No dia 13 de junho eu cheguei com 22 mil cruzeiros e passei a ser dono do Alabaxé, desta Casa. E ai eu fui lutando, construindo, carregando pedra, meu povo todo, muita gente em Maragojipe me ajudou, vinham aqui, a gente fazia aquela feijoada e o povo vinha trabalhar dia de domingo.

Comecei primeiro aqui de madeira, casa de barro. E fui fazendo, fui construindo, fui lutando. Eu não tenho casa fora, mas tenho minha casa do meu Santo. Aqui é a minha morada. Eu quis fazer pra meu Orixá. A dele eu me cubro também com a casa que eu fiz pra ele, porque tudo que eu tenho quem me deu foi o Orixá. E ai nós estamos nessa vida. Eu luto e quero que todos façam com o Orixá como eu faço. Dê amor, carinho, respeito à religião. Porque o Orixá quando ele veio não escolheu, nem preto nem branco. Porque nós temos que valorizar nossa origem, nossa terra. Meus antepassados, meu tataravô foi africano, era escravo, trabalhou nesse engenho. Meu tataravô era negro. Eu tenho sangue negro nas veias. E o Orixá é tudo na minha vida. Ilê Alabaxé é aquilo que põe e dispõe de tudo e eu construí essa Casa e tenho orgulho." contou.


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